O ANÚNCIO NOS AREÓPAGOS ATUAIS, UMA MENSAGEM DE ESPERANÇA EM UM MUNDO DESESPERADO

Como devemos abordar o mistério de Cristo aos homens de hoje? Essa preocupação atual da Igreja, foi a mesma em todos esses séculos na sua tarefa e missão de evangelizar. Como sabemos não é algo tão fácil, pois os homens e mulheres que ao seu tempo lidaram com essa missão, precisaram unir as ferramentas da época, com fidelidade à revelação, para que o anúncio chegasse a todos, utilizando elementos regionais e culturais dos lugares onde o cristianismo foi se estabelecendo.[1]

Talvez um olhar aos modelos de como isso foi trabalhado no passado, nos ajude a refletir em um pensamento para o presente. Primeiro, gostaríamos de considerar que Jesus e o seu ensinamento, têm uma grande importância não apenas para os cristãos, mas, para a civilização. Ele foi um homem simples, que nasceu, e viveu em uma região até então quase desconhecida, cresceu em um ambiente permeado por tradições, era conhecedor do momento cultural e religioso do lugar em que habitava[2]. Ele optou pelos desamparados, mostrando não apenas em palavras, mas em atos, que anunciava um Deus benigno, cheio de amor, capaz de perdoar ao pecador arrependido sem discriminação, sem olhar o caráter ético ou religioso[3].

Jesus fez os excluídos, abandonados e marginalizados veem sentido em suas vidas. Seus atos e palavras afastavam o desespero e as angustias, trazendo esperanças para aqueles que já não a tinham. Sua morte na cruz, sua ressurreição, e o testemunho de seus seguidores de que ele é o Filho de Deus, chegou às grandes culturas, modificando a maneira de pensar de povos e alterando o curso da história de homens e mulheres. Os seus discípulos, e os novos convertidos, foram os grandes responsáveis para que Jesus Cristo se tornasse conhecido, cumprindo assim a sua ordem, que fossem suas testemunhas até os confins da terra (Cf. At 1,8).

Em cada lugar que chegavam, os missionários de Jesus, anunciavam a novidade de seu Reino a partir do modo de viver das pessoas, ou seja, havia uma inculturação, permitindo que com os elementos daquele povo, o Cristo fosse conhecido[4]. Em muitos casos a fé cristã, foi explicada e defendida usando para tal as Escrituras judaicas[5] e a filosofia grega[6], nestas primeiras culturas onde o cristianismo adentrou.

Nossos dias carecem de uma abordagem mais eficaz e atual. Mas o que seria bom usar da cultura? Como devemos abordar as pessoas a respeito de Cristo? Vivemos num mundo de facilidades, a tecnologia é colocada como fator responsável pelo modelo de vida de grande parte das pessoas, que terminam por optar pelas novidades do presente, a fim de abastecerem suas vontades cada vez mais sedentas de novos e modernos elementos que envolvam seu tempo e preencham sua mente, geralmente tocada pela angústia e desespero.

Nesse sentido, o anúncio de Cristo deve ir ao encontro do povo como uma mensagem de vida em meio a um mundo de morte, advinda de uma perda de esperança. O homem é amedrontado pelo fato de que o tempo passa rápido não deixando opções para remissão de erros ou novos recomeços. A modernidade pode até suprir o agora, mas deixa vaga a questão do depois, e embora feliz no hoje, senão todos, mas muitos pensam como será o futuro, o que será quando a vida chegar ao fim. É o desespero e a angustia de não ser páreo frente a finitude, de ser a vida humana um grão de areia frente ao oceano da eternidade.

Uma forma de chegar às pessoas – não só, mas –  em especial aos jovens que tanto se distanciam do mistério de Cristo, é usar a sua linguagem, imbuída de elementos comuns a seu tempo, sem se desvencilhar do que é próprio do Evangelho e do ensinamento da Igreja. É cada vez mais comum, jovens e até mesmo adultos buscarem a solidão dos quartos, se entregarem aos computadores e celulares, jogos, conversas virtuais etc., afastando-se da família e da Igreja. Há uma forma de chamá-los à Igreja, mas não mais como antes, que eles teriam que sair do seu “mundo” e buscá-la, agora, é necessário que ela vá até eles, portanto usar uma mensagem virtual, que apresente a novidade do evangelho, dessa vez não começando por um grupo de pessoas que estavam reunidas e o pregador anunciou, como Paulo no areópago de Atenas (At 17, 19 – 31), mas que saia do particular para chegar a formação de grupos, visto que as pessoas de hoje em dia se fecharam em um mundo apenas seu, pelo fato de infelizmente a tecnologia terminar muitas vezes por distanciar, isolar membros de suas comunidades, mesmo que supostamente esta sirva para encurtar as distâncias. A mensagem de Cristo, anunciada pelos meios virtuais e com uma linguagem voltada para essa realidade, pode ser o fator que una as pessoas dispersas nesses meios, e a partir disso traga sentido às suas vidas, capaz de superar a angustia e o desespero, e leve-as a sair de si e ir ao encontro do outro, na comunidade.

Os momentos de crises, em especial da juventude, vêm pelo fato de que mesmo munidos de tantos elementos tecnológicos e do momento, podendo ser descartados logo que surjam outros mais modernos, não se encontra a paz e a esperança em tais objetos, e nem mesmo na falsa ideia de uma vida cheia de felicidades já aqui. A grande guerra do homem se dá contra si mesmo, e o seu exterior tem se tornado o maior inimigo do interior, pois este não compactua com a fome por novas descobertas, novos aparelhos etc., mas tem sede de paz, de encontrar a verdadeira felicidade. Surge um certo dualismo no homem. Nos últimos tempos, cresce consideravelmente o número de casos de suicídios entre jovens, e até mesmo àqueles que têm uma vida socialmente bem-sucedida. De certa forma, as novidades do presente não saciam a sede da humanidade, elas têm sido apenas uma tentativa de abastecer os homens com certas felicidades pautadas no luxo e no consumismo, porque na realidade, a sede do homem é o infinito, e o que a atualidade tem feito, embora não com muito sucesso, é tentar saciá-lo com as suas novidades finitas.

No entanto, a mensagem cristã, já há dois mil anos, guarda essa abertura ao infinito, e assim como os primeiros anunciadores usaram de realidades culturais, devemos usar das novidades presentes, novidades tecnológicas, para que mais pessoas conheçam o Cristo e adentrem na comunidade de seus fiéis. A mensagem de esperança e vida daquele Jesus de Nazaré, que viveu na Galileia, e cujo mistério de ter vencido a morte e garantido a ressurreição foi anunciado ao mundo, precisa ser adaptada aos instrumentos de hoje, adentrar nos quartos, computadores, celulares e “mundinhos” onde se escondem a juventude e tantos adultos que esfriaram, se esqueceram da fé, a fim de chamá-los, buscá-los, evangelizá-los e enviá-los a testemunhar as maravilhas de Deus, como fizeram outrora os renascidos pela esperança, amor e vida do Nazareno ressuscitado, vencedor da morte e do tempo.

Ismael Felix*

 

 

Referências Bibliográficas

MOINGT, Joseph. O homem que vinha de Deus. São Paulo: Loyola, 2008

SCHNEIDER, Theodor. (org.) Manual de Dogmática V. I. 4ª edição – Petrópolis, RJ: Ed. Vozes 2012.

MOINGT, Joseph. Deus que vem ao homem, do luto à revelação de Deus v. I. São Paulo: Loyola 2010.

 

* Ismael Felix, Seminarista na Diocese de Jundiaí – SP, aluno do 3º semestre de Teologia, Unisal, Unidade São Paulo, Campus Pio XI.

[1] Cf. MOINGT, Joseph. O homem que vinha de Deus. São Paulo: Loyola, 2008. p. 72.

[2] Cf. SCHNEIDER, Theodor. (org.) Manual de Dogmática V. I. 4ª edição – Petrópolis, RJ: Ed. Vozes 2012. p. 222

[3] Cf. MOINGT, Joseph. Deus que vem ao homem, do luto à revelação de Deus v. I. São Paulo: Loyola 2010. p. 292.

[4] Cf. MOINGT, Joseph. O homem que vinha de Deus. p. 82.

[5] Cf. Ibid. p. 73 – 74.

[6] Cf. Ibid. p. 74

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