AS DIFERENTES IMAGENS DE DEUS NO LIVRO DE JÓ

Ismael Felix de Sousa

Analisamos os discursos de Jó e seus amigos para chegarmos às imagens de Deus que aparecem intrinsicamente nos textos. As falas dos personagens estão intercaladas: primeiro Jó quebra o silêncio, depois os três falam e entre eles há sempre uma intercalação de Jó.

Notamos uma diferença entre a imagem de Deus passada pelos interlocutores e a passada por Jó. Na fala de Jó apresenta-se uma visão de Deus como veem aqueles que clamam por socorro na hora do sofrimento; visão de Deus que muitas vezes paira nos olhos dos que estão vivendo uma experiência difícil na qual não se tem respostas aos questionamentos, mas experimenta-se um silêncio de Deus. Parece normal a revolta de alguns diante desse silêncio. Já a imagem que sobressai nos discursos dos interlocutores é bem diferente, neles a teoria sufoca a prática. Eles ouviram falar de Deus, aprenderam com a religião, e não concebem que Deus possa ser ou agir diferente das suas teorias. O Deus que apresentam parece não ter autonomia e nem amar toda a sua criação incondicionalmente porque não esquece o erro do que cai e está sempre ao lado dos grandes a quem favorece com saúde, riqueza e boa vida.

O primeiro dos amigos de Jó a falar é Elifaz de Temã, que mostra claramente uma mentalidade onde Deus premia os bons e castiga os maus. Naquela mentalidade a pobreza, os tormentos, a necessidade eram sinônimos de castigo e um justo não poderia passar por sofrimentos: “recordas-te de um inocente que tenha perecido?” (4,7). Ao colocar os pobres, doentes e desamparados como pecadores, esse entendimento caía como uma peça de defesa para os abastados, visto que a benção de Deus repousava sobre os justos em forma de prosperidade.

A imagem de Deus que aparece no discurso de Elifaz é de um Deus que faz o bem a quem caminha na retidão e justiça, e castiga todo aquele que se desvia do bom caminho. Nas suas palavras pode-se interpretar um Deus cujos sentimentos se assemelham aos do ser humano que geralmente sabe retribuir com o bem a quem lhe faz o bem, mas muitas vezes paga com o mal aquele que lhe faz o mal. Vemos um Deus que age de dois modos: benigno e cheio de amor para com uns e ao mesmo tempo vingativo cuja justiça excede a misericórdia para com os que caíram no erro, esses “ao sopro de Deus perecem, são consumidos pelo sopro de sua ira.” (4,9).

Portanto na ótica do discurso de Elifaz, se Jó sofre, é porque em algum momento deixou esfriar a chama da justiça, se corrompeu, cometeu algum erro que aos olhos de Deus merecia castigo e, por isso, deveria receber paciente e ser fiel mesmo naquela situação, afinal: “ditoso o homem a quem Deus corrige” (5,17). Elifaz tenta fazer com que Jó silencie e consinta no fato de que fez alguma coisa digna de tal castigo que era uma advertência divina.

No cap. 8 começa o discurso de Baldad de Suás que caminha praticamente na mesma direção de Elifaz. Fala de direito e justiça, levando-nos a pensar nele como um representante da lei. Baldad está inclinado a ver um Deus moralista. A imagem de Deus no seu discurso é pautada na teria tradicional da retribuição aplicada com o mesmo rigor de uma lei da natureza,[1] logo, também é um Deus que premia os justos e castiga os ímpios. O pressuposto que ele coloca para a desgraça de Jó é a ideia das faltas dos seus filhos.

Para Baldad, a ideia de justiça divina presente na história de Israel, atuante na mente dos israelitas e confirmada pela religião da época, não poderia ser distorcida por nenhum homem multável, quanto mais pelo Deus imutável: “acaso Deus torce o direito ou Shaday perverte a justiça?” (8,3). Nessa ótica pode-se interpretar de seu discurso que a misericórdia divina não poderia chegar a todos, mas só aos que se fizessem dignos dela. Deus não poderia agir segundo a sua vontade, mas apenas dentro do que estava na lei, não poderia livrar do castigo alguém que se arrependesse do erro, pois mesmo que alguém se arrependesse não poderia apagar da história que fora ímpio e por isso deveria ser recompensado como tal.

No discurso de Baldad está aparece um Deus distante, que habita as alturas e, o ser humano não tem condições de se colocar frente a Ele. Colocar-se como justo diante de Deus ou atestar a própria inocência não resolveria os problemas, afinal Deus tudo vê e nada é estranho ao seu conhecimento, então conhecia bem a vida de Jó. Em Baldad Deus opta pelo moralismo, o que nos leva a crer que “a salvação do homem repousa afinal não na graça de Deus, mas no caráter daquele que a implora, atribuindo seus frutos voluntariamente a si.”[2] Como a fala de Jó se defendendo antecede esse discurso, aparece também a ideia que se um justo sofre com paciência, seu sofrimento será saciado de uma futura glória: “teu passado parecerá pouca coisa diante da exímia grandeza de teu futuro” (8,7), ou seja, se não houver um questionamento porque está sofrendo, se permanecer fiel a lei, então Deus retribuirá com a benção, podendo acontecer o contrário caso haja uma revolta por parte do sofredor.

Sofar de Naamat representa a sabedoria e faz uma defesa à Sabedoria Divina, nela não pode haver enganos. Ele parte abordando a sabedoria transcendente de Deus que contrasta a ignorância do homem.[3] No fundo Sofar vai na mesma linha dos outros dois amigos de Jó, a imagem de Deus que apresenta em seu discurso é mesma dos anteriores, um Deus que pede conta dos erros dos homens, ou seja, que castiga o ser humano, e persegue o infeliz por causa  de suas faltas,[4] esse Deus tudo pode e tudo sabe, e homem nenhum pode conhecer a sua sabedoria porque ela é insondável, de certo modo, como em Baldad, é um Deus que está absolutamente fora do alcance do homem, entre eles há um abismo intransponível.

Sofar coloca uma série de bênçãos da parte de Deus, mas estas só são destinadas aqueles que permanecerem honrados e fieis a Deus (Cf. 11, 13 – 19), enquanto que o castigo baterá na porta dos que não forem assim: “os olhos do ímpio se turvam, seu refúgio malogra, sua esperança é entregar a alma.” (11,20). Assim Jó deveria se arrepender e voltar ao caminho reto, e depois que passasse pelo sofrimento em compensação pelo que cometeu, certamente seria abençoado.

Os discursos de Jó entrelaçam os dos três amigos que na realidade foram uma peça de defesa a favor da religião da época. Os amigos de Jó procuraram em seus discursos mostrar que Deus não era injusto, (que o sistema da época não era injusto), logo, a situação em que Jó se encontrava era consequência da sua própria vida, nela havia uma raiz para aquele sofrimento, enquanto que a não aceitação de Jó revela a sua indignação ao pensamento corrente. A imagem de Deus que aparece em Jó parte, portanto, da apresentação de Deus feita pelos amigos, ou seja, daquilo que a religião da época pensava, sendo assim, primeiro precisamos entender a imagem divina apresentada pela teologia dos discursos dos interlocutores. Eles tentaram expressar a justiça divina, mas a base que tinham era a doutrina da retribuição.

Jó apresenta um Deus diferente do apresentado por eles que jamais ousaram falar contra Deus, como se devia esperar de alguém que se colocasse como cumpridor da Lei. Quem era Deus então? Jó em toda a sua fala lança um grito apavorado em favor da sua inocência, defende a sua causa e mostra que em toda a sua vida fizera o bem, sem extorquir, sem abusar, ajudando os desamparados, logo, se recusa a aceitar a teoria de seus amigos e coloca em Deus a culpa da sua desgraça. Se era verdade que Deus corrigia os ímpios e amparava os justos como falava a religião, Jó não se sentindo ímpio, ver um Deus que esquece a causa do justo, afinal ele se dizia justo em toda a sua vida: “quantos são meus pecados e minhas culpas? Prova meus delitos e pecados” (13,23), logo, diante de sua vida reta e de seu sofrimento sem motivo, Deus é um Deus terrível, que exerce sua justiça castigando as pessoas:[5]agora sei que tinhas a intenção de vigiar sobre mim para que, se eu pecasse, meu pecado não fosse considerado isento de culpa” (10, 13 – 14).

Jó vê um Deus que asfixia, ou que não está interessado na vida dos desfavorecidos, pois não chega com seu poder a favor deles, mas cala-se quando eles clamam por socorro. Ao contrário do que diziam seus amigos, o que mais parece é que Deus deixa os injustos impunes: “nas tendas dos ladrões reina a paz, e estão seguros os que desafiam a Deus, pensando que o tem na mão” (12,6), e fecha seus olhos diante da causa do pequeno, ou seja, parece mais é que Deus não está “nem aí” para o que acontece no mundo.

No fundo, as imagens de Deus que aparecem em cada discurso revelam o pensamento da época, onde a visão oficial era a que está na boca dos interlocutores, enquanto que a de Jó representa a visão dos que estão nas margens. No discurso de Jó desaparece o conformismo com a situação que eles querem forçá-lo a aceitar, por isso a ideia de que Jó se revolta. No texto, Jó se revolta com Deus, mas na verdade as palavras colocadas na sua boca mostram uma revolta contra a religiosidade e espiritualidade daquele tempo, contra aquela imagem de Deus apresentada pela religião. Com isso Jó toma consciência do valor da vida e do fato de que está dentro de um sistema injusto.[6]

Só dessa forma entenderemos o pensamento de Jó, quando entendermos que o Deus passado pelos interlocutores não pode ser o Deus verdadeiro, essa imagem estava mais próxima dos ídolos, os deuses eram sanguinários e vingativos. Deus não pode ser o distribuidor da riqueza, pobreza e sofrimento e, se assim fosse, Deus estaria ao lado apenas de alguns (ricos).[7] Aquela visão de Deus servia – e para alguns ainda serve – para apoiar quem tem riquezas, favorecendo a injusta divisão de bens e indo contra as classes desfavorecidas, é uma visão preconceituosa, pois, ao colocar como fundamento para a riqueza e para a miséria a vontade de Deus, privilegia uns e obriga a maioria a aceitar calada a dominação por parte da minoria.

 

 

Referências bibliográficas:

MURPHY, R. E. Jó e Salmos, encontro e confronto com Deus. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.

TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994.

  1. I. Luis; STADELMANN, S. J. Itinerário de Jó. São Paulo: Edições Loyola, 1997.

DIETRICH, Luís José. O grito de Jó. São Paulo: edições Paulinas, 1996.

 

[1] Cf. MURPHY, R.E. Jó e Salmos, encontro e confronto com Deus. São Paulo: Edições Paulinas, 1985. p. 82.

[2] TERRIEN, Samuel. Jó. São Paulo: Paulus, 1994. p. 105.

[3] Cf. J. I. Luis; STADELMANN, SJ. Itinerário de Jó. São Paulo: Edições Loyola, 1997. p. 94.

[4] Cf. Ibid. p. 122.

[5] Cf. DIETRICH, Luís José. O grito de Jó. São Paulo: edições Paulinas, 1996. p. 45.

[6] Cf. Ibid. p. 56.

[7] Cf. DIETRICH, Luís José. O grito de Jó. São Paulo: edições Paulinas, 1996. p. 57.

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