A EUCARISTIA, CONVITE À SOLIDARIEDADE

Ismael Felix de Sousa

Seminarista no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro de Jundiaí – SP. Cursou Filosofia pela Faculdade São Bento de São Paulo (2015 – 2017) e atualmente é aluno do 6º semestre de Teologia pelo Centro Universitário Salesiano, Unisal, campus Pio XI. Realiza estágio pastoral na paróquia São Francisco de Assis em Campo Limpo Paulista – SP.

 

A Eucaristia nos convida à solidariedade, sendo impossível dizer-se cristão, ter participação nos sacramentos, comungar do Corpo e Sangue do Senhor e não ter consciência da relação que existe entre a sua celebração e a prática da caridade. A Santa Missa é o mais importante ato católico e, a liturgia que é o cume e fonte do agir da Igreja (SC n. 10), é “também cume e fonte do agir ético de cada comunidade cristã e de cada fiel individualmente, chamado a não esquecer os irmãos que estão em necessidade e todos aqueles que vivem situações de injustiça.”[1]

É certo que a dimensão social foi muito mais trabalhada nos primórdios do cristianismo e embora haja, nos dias atuais  por parte alguns, um entendimento deturpado acerca do que é a Eucaristia, e até mesmo, da sua interpelação no cotidiano dos crentes,  devemos trabalhar na Igreja para que os cristão tomem a consciência que celebrar a ‘fração do Pão’ é selar um compromisso com a comunidade e promover a igualdade e a fraternidade, pois, “uma Eucaristia sem solidariedade com os outros é uma Eucaristia abusada”.[2] Portanto, deve haver o entendimento que este sacramento vai além de uma celebração e que resumi-lo a isso é fugir totalmente do seu sentido original de forma que os fieis que o veem simplesmente como rito, certamente, não entenderam ou nem mesmo chegaram ao conhecimento da dinâmica de Jesus.

Do rito celebrado deve-se partir para a experiência de vida comunitária, afinal, a Eucaristia é a vida da Igreja como um todo, por isso deve estar presente no cotidiano dos seus filhos em todos os momentos e não apenas quando se reúnem dominicalmente. Os primeiros cristãos tinham muito forte essa compreensão, de modo que em suas comunidades a reunião em torno da mesa não era alheia as necessidades e dores do próximo. Infelizmente, o que acontece hoje em dia na maioria das vezes é que muitas vezes se reza no mesmo local, as mesmas orações, na mesma comunidade, na companhia das mesmas pessoas, mas ignora-se a vida delas, seus problemas e as situações que lhes negam o direito de todo ser humano. Os escritos antigos mostram que nas primeiras comunidades viviam-se em comunhão, não apenas de oração, mas que ali se dava um verdadeiro testemunho da prática cristã como nos mostra Justino de Roma no século III: “o que foi recolhido se entrega ao presidente, ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provisor de todos os que se encontram em necessidade.”[3]

Diferente do sair de seu mundo isolado e participar de forma também isolada da celebração no final de semana, sem comprometer-se com a vida da comunidade, sem ajudar nas pastorais e movimentos e, até mesmo, fugindo de um convívio fraterno, os cristãos se entregavam inteiramente à finalidade da vida cristã. Jesus pregou e viveu o amor e disse que a prova maior desse sentimento é dar a vida pelo outro (Cf. Jo 15,13). Seus seguidores foram tão fieis a essa máxima que eram conhecidos pela forma como se amavam, pois, entre eles havia uma conexão tão intensa que aqueles que não professavam a mesma fé se admiravam a ponto de diferenciar-lhes pela forma como viviam a fraternidade, afinal, transparecia-se nos irmãos uma só alma e um só coração, não havendo necessidades em seu meio, sinal que nas comunidades trabalhava-se a conscientização do cuidado para com todos em especial na partilha da vida e dos bens, como aparece no Atos dos Apóstolos: “todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (At 2, 44-46).

“A Eucaristia nasce do amor e gera amor”[4] e o amor não é algo que se guarda em um baú fechado que por não ser trabalhado acumula ácaro e se olha estarrecido uma vez na vida, mas é uma vivência e mais do que com palavras se exprime em gestos. No presente, urge a necessidade do amor ultrapassar a dimensão litúrgica oracional e transparecer-se no cuidado para com os demais, em especial, com os mais vulneráveis e marginalizados, pois “Deus não atende a oração daquele que não escuta o grito do pobre, porque não poderá jamais haver culto autêntico se aqueles que o celebram são causa de injustiça.”[5] Logo, a Eucaristia deve nos impulsionar a viver o projeto de Jesus, que nasce do seu amor pela humanidade a ponto de dar a sua vida para que todos vivam em plenitude (Cf. Jo 10,10) e requer que aqueles que a celebram vivam essa mesma dimensão, pois, este Sacramento visa fortalecer a fraternidade, minando definitivamente a divisão entre os homens e as desigualdades sociais.

É muita ingenuidade pensar que a preocupação com o próximo e respeito ao mandamento de Cristo sempre gozou de perfeição na vida comunitária, mas é fato que com o passar dos anos cresceu cada vez mais nas comunidades o individualismo e, como consequência disso, também “a comunhão reduziu-se a algo individual, enquanto que seu próprio nome nos lembra o caráter comunitário.”[6] O problema tem uma raiz profunda, já na primeira carta aos Coríntios, São Paulo se depara com algo desse tipo e expressa a sua preocupação: aquele povo não estava levando a sério o sentido da Ceia do Senhor, deixando de lado o ideal que realmente os reunia. Se analisarmos, o Apóstolo aponta que nas reuniões litúrgicas de Corinto faltava a fraternidade e isso o leva a indagar: “não tendes casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e quereis envergonhar aquele que nada têm?” (ICor 11,22). O fato é que ali os de melhores condições chegavam mais cedo à reunião, enquanto os pobres que precisavam trabalhar chegavam mais tarde, os primeiros começavam antes e por isso aproveitavam-se da melhor parte dos dons, enquanto isso, os que estavam trabalhando e chegavam depois ficavam com as sobras, alguns se fartavam, chegando a se embriagarem, enquanto os mais pobres passavam fome.

Infelizmente o problema cresceu, muitas pessoas veem a Eucaristia como uma prática devocional e por isso não veem, nem sentem a necessidade de trabalhar pelo bem de todos. É cada vez mais urgente e necessário todos os homens compreenderem que na Igreja, somos convidados a ter os mesmos sentimentos de Cristo (Cf. Fl 2,5), que na sua vida antecipou-se muitas vezes em favor dos menos favorecidos. A Sagrada Escritura não corrobora com práticas que não valorizam a vida, e ensina que desprezar o irmão é desprezar o próprio Cristo faminto, sedento, nu, doente e preso, ou seja, Cristo sofredor naqueles que padecem necessidades (Cf. Mt 25, 35-36), e que nesta situação espera de nós e nos faz a mesma pergunta que outrora Deus fez a Caim: onde está o teu irmão? que fizeste! Ouço o sangue do teu irmão, do solo, clamar até mim (Cf. Gn 4, 9-10).

O conselho do Apóstolo Paulo à comunidade de Corinto torna-se atual, repete-se de forma insistente e incessantemente nas nossas assembleias e deve ressoar em nossas mentes. Ele nos impele a tomarmos consciência que “em uma comunidade cristã autêntica não se pode sentar à mesa do Senhor, comer o pão celestial e depois ignorar a existência daqueles que passam fome ao redor; não se pode voltar da refeição eucarística e desprezar os que vivem na miséria”[7]. Destarte, a Eucarística nos leva a um compromisso com o irmãos, com o mundo e a sermos solidários com o próximo. Somos responsáveis uns pelos outros. Caminhamos na mesma pátria almejando a pátria celestial e eterna, mas essa pátria eterna começa aqui, no agora. A eucaristia nos possibilita a provarmos da certeza da eternidade, a comunhão com Cristo morto e ressuscitado e com os irmãos e, ao mesmo tempo, nos interpela a imitarmos os ensinamentos e exemplos de Cristo que se faz presença real em nossas vidas por meio da mesma.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

BOSELLI, Goffredo. O sentido espiritual da Liturgia. Edições: CNBB, 2014. (Coleção: vida e liturgia da Igreja).

JUSTINO DE ROMA: I e II apologias, diálogo com Trifão. Introdução e notas explicativas Roque Frangiotti; trad, Ivo Storniolo; Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulus, 1995. (Col. Patrística, 3).

LERCARO, Cardeal.  A Eucaristia em nossas mãos, liturgia e catequese. São Paulo: Paulinas, 1970.

Província Eclesiástica de Alagoas, O Caminho, síntese da Doutrina cristã para adultos. 8. ed. São Paulo: Loyola, (ano).

SILVESTRE, Juan Jose. A liturgia, por Bento XVI.  Seleção de textos e notas. São Paulo: RR Donnelley, 2012.

[1] BOSELLI, Goffredo. O sentido espiritual da Liturgia. Edições: CNBB, 2014. p. 164. (Coleção: vida e liturgia da Igreja)

[2] SILVESTRE, Juan Jose. A liturgia, por Bento XVI.  Seleção de textos e notas. São Paulo: RR Donnelley, 2012. p.45.

[3] JUSTINO DE ROMA: I e II apologias, Diálogo com Trifão.  I, 67.

[4] PROVÍNCIA ECLESIÁSTICA DE ALAGOAS. O Caminho, síntese da Doutrina cristã para adultos. 8. ed. São Paulo: Loyola, (Ano). p. 237.

[5] BOSELLI, Goffredo. O sentido espiritual da Liturgia. Edições: CNBB, 2014. p. 164.  (Coleção: vida e liturgia da Igreja)

[6] LERCARO, Cardeal.  A Eucaristia em nossas mãos, liturgia e catequese. São Paulo: Paulinas, 1970. p. 144.

[7] LERCARO, Cardeal.  A Eucaristia em nossas mãos, liturgia e catequese. Ed. Paulinas: São Paulo, 1970. p. 145.

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